Não deixa de surpreender que um dos factos mais relevantes que têm acontecido nos últimos anos no Estado Espanhol, tenha passado praticamente inadvertido para os meios de comunicação e para a chamada “opinião pública” galega: a primeira vez que se pergunta a cidadãos e cidadãs se querem ou não seguir pertencendo à Espanha.
Era previsível que o referendo de Arenys seria atacado sem piedade pelo espanholismo mediático e efetivamente, este não demorou em passar à ofensiva intentando desacreditar a consulta. Como na Galiza ninguém parece disposto a sair na defesa de Arenys de Munt, deixo aqui umas quantas anotações para combater a distorção.
Em primeiro lugar, todos os meios de comunicação da direita ressaltam que apenas votou o 41% do censo; uma percentagem menor que em outros comícios. Assim, La Razón proclama triunfante que 59% ficou em casa e o ABC destaca que não votou nem metade dos vizinhos. O que não explica nenhum meio é que censo se alargou às pessoas imigradas e que a idade mínima para participarem reduziu-se aos 16 anos, ambos coletivos não são tradicionalmente proclives à participação por razões evidentes. Também não explicam que em Arenys de Munt, núcleo de população geograficamente disperso, apenas contava com um colégio eleitoral (o
Centre Moral) já que a câmara municipal não podia ceder as suas instalações à consulta por ordem dos julgados de Barcelona. No dia 13 de setembro, dia da votação, era o último dia da ponte da diada... Ainda assim, votou 41%.
Que 59% ficou em casa? Espanholistas, não se enganem: 96,2% de quem votara fizeram-no pelo sim. No suposto fictício de que votasse 100% do censo, mantendo o voto branco constante e imaginando que o resto se pronunciaria em contra, o sim continuaria ganhando por um 56%. Como nos recorda
Marc Guinjoan em El Pati Descobert, um ponto por cima do que necessitou Montenegro para declarar-se independente em 2006.Outra constante da mentira oficial é envolver a classe política catalã na estratégia dos referendos. Insisto, não se enganem: a classe política catalã, como sempre, não esteve à altura das circunstâncias.
O PSC e sectores de ERC não cansam de argumentar que não é uma boa estratégia cara o Estatut. Mas quem diabos quer já o Estatut? A gente reclama a independência pura e simplesmente, e não falsas soluções intermédias. Joan Saura, Conselheiro de Interior e excandidato eco-socialista de ICV, transmutou-se em Fraga e disse que a política de referendos pode batasunizar Catalunha. CiU joga ao sim mas não: alguns dos seus membros destacados dizem que votariam afirmativamente e outros que não e, em qualquer caso, não promoverão a extensão da iniciativa. É o problema de quem quer cair bem em Barcelona e Madrid ao mesmo tempo. E ERC? Já comentámos que vultos desta formação como Josep Lluís Carod Rovira são contrários a este tipo de propostas. Porém somaram-se apoiando novas consultas talvez temendo perder votos pela esquerda (
CUP) e pela direita (Reagrupament). Podem fazê-lo, ainda retoricamente são independentistas e não uns balbinos que se dedicam a pedir generosidade e clemência a Madrid.
Os autênticos artífices do referendo de Arenys são as
CUP; formação modesta, mas inteligente. A esquerda independentista catalã soube ultrapassar as tradicionais diferenças entre facções criando esta ferramenta unitária de trabalho institucional. Tome nota o independentismo galego: apesar da sua escassa força conseguiu pôr em contradição todos os partidos catalães e situou a independência da Catalunha na agenda política.Pela sua parte, a atitude de Espanha é a melhor notícia: os meios de comunicação (de esquerdas e de direitas) elevaram o nível cultural do reino recuperando expressões tais como “pantomima”, “bufonada”, “payasada”, “alarde soberanista” etc. Também enviaram um autocarro de freaks fascistas para realizar uma manifestação multitudinária de 60 pessoas com a intenção de atemorizar a população: e sorte para eles que saíram com vida... Os tribunais permitiram dita manifestação enquanto proibiam o apoio da câmara municipal à consulta. O advogado do estado que tramitou a denuncia, Jorge Buxadé, tinha sido candidato eleitoral justamente de Falange, e atualmente é membro do grupo de ultradireita Peones Negros... Parece brincadeira.
E que é que foi relevante a nível internacional? O enfado de Espanha com o separatismo? Não. Eurodeputados e eurodeputadas alemãs e italianas protestaram porque na “pele de touro” ainda se podem exibir simbologia de caráter fascista em manifestações públicas. E não, não eram todos de esquerdas: entre os que se queixavam estava o vice-presidente dos populares Manfred Weber e o dos liberais Niccolò Rinaldi.
No entanto, o independentismo catalão cresce por pura oposição ao nacionalismo retrógrado espanhol. É assim que o diário isocialistai El Periódico e o burguês La Vanguardia, ambos contrários à consulta, queixavam-se nos seus editoriais do dia 14 da desproporcionada resposta de Espanha que virou o que poderia ter sido uma anedota, num perigo para a ordem constitucional. Vão-se fazendo à ideia: Catalunha será independente em poucas décadas. A dúvida em todo o caso será se o País Valenciano e as Ilhas Baleares acompanharão o Principado na conformação duns Países Catalães livres.
E falando em respostas desproporcionadas, o Grupo de Estudos Estratégicos, think tank próximo ao PP, especula com a possibilidade de enviar o exército espanhol a Catalunha tal e como prevê o artigo 8 da Constituição Espanhola na defesa da integridade territorial do estado. Seria interessante tal eventualidade, já que um dos principais argumentos contra a atividade da ETA sempre foi que era possível defender qualquer ideia por meios pacíficos e democráticos. A sério? Veremos.
Até o momento, já há 32 municípios que aprovaram realizar uma consulta semelhante e mais de duas dezenas estão considerando esta possibilidade. Serão os únicos que respeitem os direitos de todos: consultarão os que querem a independência e os que não. Enquanto o resto, seguiremos esperando a que se tenha a nossa opinião em conta como corresponde a uma democracia.